Pequenas trocas no copo fazem grande diferença para a saúde. (Foto: Shutterstock)
Tomar refrigerante todos os dias pode fazer estragos que a balança não mostra. Um estudo do Maastricht UMC+, hospital universitário da Holanda, usou um comprimido experimental que impede o corpo de processar a frutose e mostrou o quanto esse açúcar pesa sobre o fígado. Continue lendo e entenda o que os cientistas descobriram.
Um comprimido usado como ferramenta de pesquisa
A frutose é processada quase só no fígado, e a primeira etapa depende de uma enzima chamada cetoexocinase. O comprimido testado, o PF-06835919, bloqueia essa enzima e impede que o órgão converta o açúcar.
O medicamento foi criado pela farmacêutica Pfizer para tratar a gordura no fígado, mas acabou abandonado depois da fase 2 de testes. A Eli Lilly também desistiu de dois remédios do mesmo tipo. Os pesquisadores holandeses, porém, seguiram usando a substância para medir com precisão o efeito da frutose no organismo.
O que o estudo mostrou
A pesquisa, publicada em 7 de outubro na revista Nature Metabolism, acompanhou 15 adultos com acúmulo de gordura no fígado por seis semanas. Durante o período, os participantes tomaram cerca de meio litro de refrigerante por dia, divididos em vários copos, e foram comparados os efeitos do comprimido e de um placebo.
Com o bloqueio da frutose, a gordura do fígado caiu de forma acentuada, a sensibilidade à insulina melhorou e o corpo passou a armazenar gordura de um jeito mais saudável. Os indicadores ligados ao risco de diabetes e de doenças cardiovasculares também melhoraram.
Da barriga para as pernas
O resultado que mais chamou atenção foi a mudança no formato do corpo. A gordura saiu da região abdominal e se concentrou mais nos glúteos e nas pernas, sinal de um metabolismo mais saudável.
O detalhe é que o peso não mudou. Segundo o líder do estudo, Martijn Brouwers, professor de endocrinologia e doenças metabólicas, a frutose é o único nutriente capaz de influenciar a distribuição da gordura independentemente do peso. Ele compara o efeito ao do álcool, que pode provocar a famosa barriga de cerveja até em pessoas magras.
O problema está no copo, não na fruta
Pesquisas anteriores do mesmo grupo já apontavam a frutose como causa da gordura no fígado, e mostram que refrigerantes e suco de fruta são os principais vilões. Um levantamento do Maastricht UMC+ com mais de 5.800 participantes associou um copo de refrigerante por dia a um risco 29% maior de pressão alta, efeito que não apareceu com a mesma quantidade de frutose vinda de frutas.
A diferença está nas fibras e em outras substâncias da fruta, que deixam a absorção do açúcar mais lenta. Por isso, mastigar a fruta inteira continua sendo uma ótima escolha, enquanto o suco merece moderação.
Nada de pílula mágica
Brouwers rejeita a ideia de tomar um comprimido para continuar bebendo refrigerante à vontade.
"A reação lógica ao alto consumo de refrigerantes é beber menos ou parar completamente", disse Brouwers à imprensa holandesa.
O pesquisador usa os resultados para defender um imposto sobre o açúcar na Holanda, já que o estudo mostra ganhos para a saúde mesmo sem perda de peso. Ainda assim, ele ressalta que a medida não cura a obesidade, influenciada também por hereditariedade, hormônios, estresse e pobreza. No dia a dia, a troca por água, chá ou café sem açúcar já faz diferença.
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