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Os humanos gostam de cerveja. A grande questão é se gostamos o suficiente para termos inventado a agricultura
Stephany MarianoPor  Stephany Mariano  | Redatora

Como uma verdadeira taurina, Stephany sempre foi apaixonada por comida. No tempo livre, gosta de assistir um k-drama bem clichê, viajar, experimentar novos sabores e fotografar tudo o que encontra por aí.

Durante décadas, os cientistas têm se perguntado qual foi o papel da cerveja na Revolução Neolítica

Os humanos gostam de cerveja.  A grande questão é se gostamos o suficiente para termos inventado a agricultura

A chegada de novas evidências mantém o debate em aberto há muitos anos (Créditos: Flickr / Unsplash)

A grande questão não é se veio primeiro o ovo ou a galinha, mas sim o que nossos ancestrais começaram a fazer primeiro: pão ou cerveja? Há cerca de 12.000 anos, os humanos no Oriente Próximo deram início a um dos capítulos mais importantes da nossa história: a Revolução Neolítica.

De caçadores-coletores nômades, nos tornamos criaturas que cultivavam a terra. A mudança foi tão significativa que os antropólogos há muito se perguntam o que a motivou. Seria razoável pensar que foi a busca por algo tão simples quanto o pão, mas alguns acreditam que a resposta é outra: cerveja. E se o grande motivo que nos levou a arar os campos não fosse a busca pelo pão, mas sim nossa ancestral paixão pela bebida?

Cereais, para que eu preciso de vocês? 

Os cientistas passaram as últimas décadas desvendando os mistérios do nosso passado mais remoto, mas há um sobre o qual ainda não chegaram a um consenso: o que levou a humanidade a mudar da caça e coleta para uma vida sedentária baseada na agricultura e na pecuária? Qual foi o catalisador da Revolução Neolítica, um dos períodos mais importantes de todos os tempos?

Como os humanos precisam se alimentar desde os primórdios da humanidade, a resposta parece simples. Se aqueles homens e mulheres se estabeleceram para plantar trigo e cevada, deve ter sido para fazer pão, certo? Ou seja, eles começaram a passar horas e horas cuidando de seus campos para obter grãos para se alimentar. Na década de 1950, no entanto, uma questão começou a surgir no debate antropológico: e se o que realmente lhes interessava nos grãos não fosse pão ou mingau, mas cerveja?

Novas descobertas seguem alimentando o debate do interesse humano pelo cultivo (Créditos: Freepik)

Novas descobertas seguem alimentando o debate do interesse humano pelo cultivo (Créditos: Freepik)

O debate não é novo, ele já dura algum tempo e se acirra de tempos em tempos com novas descobertas, como a anunciada em 2018 por um grupo de pesquisadores de Stanford que encontraram "o registro mais antigo de álcool". As evidências apontam que a cerveja era produzida há 13.000 anos.

Em dezembro de 2025, o jornalista científico e colunista da New Scientist, Michael Marshall, comentou sobre o debate ao publicar um extenso artigo analisando as últimas descobertas sobre o tema, destacando a dificuldade que os antropólogos enfrentam para chegar a uma conclusão.

Os benefícios da cerveja 

Para entender essa discussão, precisamos primeiro esclarecer um ponto fundamental: nem o pão, nem a cerveja da “Idade da Pedra” eram do jeito que conhecemos hoje. A cerveja, por exemplo, não era nada refrescante e tão pouco líquida, era mais como um "mingau doce e levemente fermentado", explica o professor Jiajing Wang, do Dartmouth College, em New Hampshire. "Eles germinavam os grãos, cozinhavam-nos e depois usavam leveduras selvagens."

O resultado foi uma bebida nutritiva, rica em calorias e proteínas, que poderia ser até mais segura do que beber água de rios e poços. Afinal, era um produto da fermentação. A isso se somava o teor alcoólico, um "lubrificante social" que ainda usamos no século XXI para relaxar e socializar. A arqueóloga Brin Hayden, por exemplo, destaca seu uso em eventos que ajudavam a estruturar as comunidades. Pesquisas sugerem que, pelo menos algumas comunidades, a utilizavam em rituais e para venerar os mortos.

Muito mais do que suspeitas 

Devido às descobertas, o debate permanece em aberto desde a década de 1950. Uma das descobertas mais importantes dos últimos anos, foi feita em uma caverna em Israel, em 2018, por uma equipe liderada pelo professor Li Liu, da Universidade Stanford.

Lá, eles encontraram evidências de produção de cerveja anterior ao cultivo dos primeiros grãos no Oriente Próximo. "Essa descoberta indica que a produção de álcool não era necessariamente resultado do excedente da produção agrícola, mas sim desenvolvida para fins rituais e espirituais, pelo menos em certa medida, antes da agricultura”, afirma o professor. 

Porém, isso não significa que a questão está resolvida. Uma das chaves para o problema, explica Marshall em seu artigo, é que, fundamentalmente, a fabricação de pão e cerveja deixa vestígios muito semelhantes, basicamente resíduos de amido."Ainda não temos provas conclusivas para responder a essa pergunta", reconhece Liu, referindo-se a se foi a cerveja ou o pão que nos levou a adotar o estilo de vida primeiro. 

A realidade é mais complexa: nem sequer sabemos se algum desses alimentos foi o principal catalisador que levou nossos ancestrais a mudarem seu estilo de vida. "Não me surpreenderia se ambos tivessem sido as motivações." Em última análise, o debate sobre "cerveja primeiro, pão primeiro" não se trata tanto de chegar a conclusões definitivas, mas sim de reafirmar a importância de ambos os alimentos. Tanto a cerveja quanto o pão desempenharam um papel crucial nas dietas e nos rituais.

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