Mudanças climáticas e estresse podem ser a principal causa de morte em massa de polvos nas águas galegas. (créditos: Shutterstock)
Nos últimos tempos, muita gente no Brasil se divertiu com a febre do polvo antiestresse, um brinquedo fofinho e reversível que virou moda para ajudar a relaxar. Mas, curiosamente, na vida real, o polvo não é lá um grande exemplo de autocontrole emocional. Muito pelo contrário.
Um estudo recente do Instituto de Investigações Marinhas (IIM-CSIC), da Espanha, em parceria com o Centro de Ciências do Ambiente, Pescas e Aquicultura do Reino Unido, revelou que esses animais têm bastante dificuldade para lidar com situações desafiadoras. A pesquisa surgiu após a constatação de um aumento preocupante na mortalidade de polvos na região da Galícia, situada no noroeste da Espanha.
A curiosa relação do polvo com o estresse: o molusco não lida bem com mudanças
Inicialmente, o objetivo dos cientistas era entender como medir o estresse nos polvos, especialmente para avaliar se a espécie poderia ser adaptada para a aquicultura (o cultivo controlado de organismos aquáticos). Mas a grande surpresa foi descobrir que os polvos não produzem os hormônios que, nos vertebrados, ajudam a liberar o estresse e enfrentar situações difíceis.
Essa ausência de um mecanismo de defesa pode ser justamente o que está por trás das mortes em massa desses animais nas águas galegas. Ou seja, enquanto nós esprememos e viramos o brinquedo do polvo para aliviar a tensão, na natureza, o próprio polvo não tem muitos recursos fisiológicos para fazer o mesmo.
Como o polvo lida (ou melhor, não lida) com o estresse
De acordo com a investigação, os mecanismos de defesa do polvo para enfrentar o estresse são bem diferentes daqueles que conhecemos nos vertebrados. O trabalho, liderado pelo pesquisador Josep Rotllant, revelou que o molusco simplesmente não produz cortisol, corticosterona ou cortisona, os hormônios que ajudam a regular o estresse e a adaptação ao ambiente em muitos animais, incluindo nós, humanos.
Mas calma, isso não significa que o polvo não fique estressado. Pelo contrário! Ele sente, sim, os efeitos do estresse e da ansiedade, principalmente quando passa por mudanças bruscas no seu habitat. E é justamente aí que mora o problema: os polvos têm muita dificuldade de lidar com essas situações.
Segundo os pesquisadores, esse detalhe ajuda a explicar um fenômeno preocupante na pesca galega: a morte de muitos polvos na região. Isso porque, há algum tempo, as águas da Galícia vêm sofrendo alterações importantes, como quedas bruscas na salinidade.
Essas mudanças afetam toda a vida marinha, forçando os peixes e outros organismos a encontrarem maneiras de se adaptar. Só que, como já deu para perceber, os polvos não são exatamente os mais resilientes quando o assunto é mudança. Sem os hormônios que ajudam a regular a resposta ao estresse, eles acabam sobrecarregados, num verdadeiro colapso fisiológico, até que, infelizmente, não resistem.
Excesso de chuvas pode estar por trás da morte dos polvos na Galícia
De acordo com o pesquisador Josep Rotllant, as chuvas intensas que vêm atingindo a região da Galícia são as principais responsáveis pelas quedas bruscas de salinidade nas águas locais. E esse detalhe ajuda a explicar as recentes mortes em massa de polvo. Como já vimos, alterações no ambiente natural comprometem diretamente a estabilidade fisiológica desses animais.
“Em espécies que produzem cortisol, esse hormônio promove a adaptação osmótica. Porém, a ausência desse mecanismo em polvos sugere uma menor capacidade de resistência a esse tipo de fator ambiental”, explica Rotllant em comunicado.
E não pense que esse é um caso isolado. Outros estudos, realizados por pesquisadores portugueses, já haviam confirmado a morte anormal de polvos após grandes tempestades, justamente por conta dessas mudanças ambientais. Pesquisas em Cuba também registraram fenômenos semelhantes.
A grande novidade deste estudo, no entanto, é que pela primeira vez ficou comprovado que os polvos não possuem esse mecanismo fisiológico de defesa, o que os torna ainda mais vulneráveis a fenômenos meteorológicos que alteram a salinidade da água.
Além de serem criaturas fascinantes e inteligentes, os polvos são também extremamente sensíveis ao ambiente em que vivem. Infelizmente, nem sempre conseguem lidar com as mudanças que o clima impõe.
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