Esse tempero comum está gerando debate: entenda o que dizem especialistas após alerta da Anvisa
Por  Fausto Fagioli Fonseca  | Redator

Fausto é jornalista há mais de 15 anos, tendo trabalhado em diversos veículos com foco em saúde, alimentação, bem-estar e atividade física. Admite que não é um grande cozinheiro como as suas avós, mas tem suas receitinhas secretas!

O debate, mais do que assustar, serve para lembrar que segurança e evidência científica devem caminhar juntas

Para o consumidor, a principal orientação é buscar informação confiável (Crédito: Shutterstock)

A cúrcuma, também chamada de açafrão-da-terra, virou presença constante na rotina de quem busca uma alimentação mais natural. Está no arroz, no frango, no caldo, no suco funcional e até em cápsulas vendidas como aliadas da imunidade.

Por isso, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta envolvendo a substância, o assunto rapidamente ganhou repercussão e gerou dúvidas entre consumidores.

O que diz o alerta da Anvisa?

O comunicado da Anvisa não trata do uso culinário do tempero, mas sim de medicamentos e suplementos que contêm cúrcuma ou curcuminóides em concentrações elevadas.

Segundo a agência, investigações internacionais identificaram casos raros, porém graves, de inflamação e danos ao fígado associados ao consumo desses produtos, especialmente aqueles que utilizam tecnologias para aumentar a absorção da curcumina no organismo.

O órgão também informou que medicamentos à base de cúrcuma terão atualização de bula com avisos de segurança, enquanto os suplementos passarão por nova análise técnica. Entre os sinais de alerta listados estão:

  • Icterícia (pele e olhos amarelados)
  • Urina escura
  • Cansaço intenso
  • Náuseas
  • Dor abdominal

Caso esses sintomas apareçam, a recomendação é suspender o uso e procurar atendimento médico. O ponto central do debate, porém, está na diferença entre o consumo tradicional do tempero na comida e o uso concentrado em cápsulas ou extratos padronizados. 

Doses elevadas e uso sem orientação preocupam médicos

Para o cirurgião do aparelho digestivo Pedro Bertevello, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o problema está menos na planta em si e mais na forma como ela vem sendo usada. Em entrevista ao G1, ele destacou que existem doses consideradas seguras para o uso dessas substâncias. "O problema é que muitas pessoas tentam potencializar os efeitos e acabam consumindo quantidades muito maiores do que o necessário”, afirma.

Segundo o médico, a falta de padronização clara na concentração dos produtos pode agravar a situação. Ele chama atenção para a compra de suplementos sem orientação adequada e para o uso simultâneo de diferentes substâncias. “Quando investigamos melhor esses casos, muitas vezes encontramos pessoas que usam várias substâncias ao mesmo tempo ou que aumentam a dose por conta própria, acreditando que por ser natural não haverá efeitos no organismo”, afirma.

O que mudou com os suplementos modernos

O hepatologista Luis Edmundo Pinto da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explicou em entrevista à Veja Saúde que a curcumina, principal composto ativo da cúrcuma, tem naturalmente baixa absorção pelo organismo. “A curcumina é absorvida pelo intestino, mas apenas uma pequena fração chega de fato à circulação sanguínea. Chamamos isso de baixa biodisponibilidade”, explica.

Nos últimos anos, fabricantes passaram a investir em estratégias para aumentar essa absorção, combinando a curcumina com outras substâncias ou usando tecnologias específicas. De acordo com o especialista, foi a partir desse movimento que começaram a surgir relatos mais frequentes de lesão hepática associados aos suplementos concentrados.

“Com o advento dos meios de aumentar sua biodisponibilidade, passou-se a identificar vários casos de lesão hepática, sendo responsabilizada como provável causa de surtos de hepatite aguda”, afirma. Ele ressalta que a gravidade pode variar bastante. “Vai desde quadros leves e que se resolvem com a suspensão da substância, até episódios de hepatite aguda grave, necessitando de transplante de fígado ou até levando à morte”, diz o hepatologista.

O médico também explica que nem todas as pessoas reagem da mesma forma. Fatores genéticos, interação com medicamentos e uso concomitante de outros suplementos podem influenciar a forma como o fígado metaboliza a substância.

Temperar a comida não é o problema

O professor Leopoldo Baratto, da UFRJ, comentou o alerta em vídeo publicado no canal @plantaciencia e reforçou a diferença entre alimento e extrato concentrado. “O alerta da Anvisa destacou que houve um aumento preocupante de relatos de hepatotoxicidade, ou seja, danos graves ao fígado associados ao uso de suplementos e medicamentos à base dessa planta. O ponto crucial aqui não é o tempero que você usa no arroz”.

Ele aproveita para lembrar que a forma tradicional de consumo é distinta das cápsulas concentradas. “Então o recado principal é: natural não é sinônimo de inofensivo. A diferença entre o benefício e a toxicidade está na dose e na forma de apresentação.”

Informação e equilíbrio

O alerta da Anvisa não demoniza a cúrcuma nem recomenda abandonar o tempero na cozinha. O foco está no uso concentrado e sem acompanhamento técnico. A discussão reacende um tema recorrente na área da saúde: a diferença entre alimento tradicional e extrato padronizado com alta potência.

Para o consumidor, a principal orientação é buscar informação confiável, evitar automedicação e desconfiar de promessas milagrosas. A cúrcuma segue sendo um ingrediente valorizado na culinária, mas quando transformada em cápsula de alta concentração, a lógica muda.

É melhor tomar o chá de cúrcuma pela manhã ou à noite? Descubra o horário ideal!

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