Sorvete servido em um restaurante de luxo virou alvo da Justiça sul-coreana após autoridades descobrirem o uso de formigas sem autorização sanitária.
Uma sobremesa que chamou atenção pela criatividade agora virou caso de polícia na Coreia do Sul. O responsável por um restaurante de luxo com duas estrelas Michelin em Seul pode ser condenado a um ano de prisão por servir formigas secas como cobertura de um sorvete, mesmo sem autorização para utilizar o ingrediente.
O caso ganhou repercussão após uma investigação das autoridades sanitárias apontar que o estabelecimento serviu a sobremesa por quase quatro anos. Além disso, análises revelaram que as formigas apresentavam níveis de metais pesados muito acima do encontrado em insetos autorizados para consumo no país.
Como a sobremesa entrou na mira das autoridades
A investigação começou por causa de fotos e avaliações publicadas por clientes em blogs e redes sociais. Nas imagens, era possível ver pequenas formigas espalhadas sobre os pratos servidos pelo restaurante.
Após identificar as publicações, o Ministério da Segurança Alimentar e Farmacêutica da Coreia do Sul abriu uma investigação para verificar se o ingrediente estava sendo utilizado de forma regular.
Segundo a promotoria, entre abril de 2021 e novembro de 2024 o restaurante importou dois tipos de formigas secas dos Estados Unidos e da Tailândia por meio de remessas internacionais. O ingrediente continuou sendo servido até janeiro de 2025, sem que o estabelecimento tivesse obtido a autorização exigida pela legislação local.
Agora, os promotores pedem um ano de prisão para a representante da empresa responsável pelo restaurante, além de uma multa de 20 milhões de won, o equivalente a cerca de US$ 13.500.
Sorvete foi vendido mais de 12 mil vezes
O prato no centro da investigação era um sorvete preparado com Sikhye, uma tradicional bebida coreana feita à base de arroz fermentado e levemente adocicada.
Para finalizar a sobremesa, os chefs colocavam normalmente entre três e cinco formigas secas sobre cada porção. A ideia era adicionar um toque ácido ao prato.
De acordo com o processo, o sorvete foi vendido mais de 12.200 vezes, gerando aproximadamente 120 milhões de won em vendas. Com base nessa quantidade, os investigadores estimaram que cerca de 49 mil formigas foram utilizadas ao longo do período.
Restaurante diz que nem todos aceitavam experimentar
Os responsáveis pelo restaurante reconhecem boa parte dos fatos apresentados pela acusação, mas contestam a estimativa do número de formigas consumidas.
Segundo a defesa, nem todos os clientes aceitavam provar o ingrediente. Antes da sobremesa ser servida, cada pessoa era consultada sobre o interesse em experimentar as formigas. Apenas cerca de 60% concordavam.
Quem recusava recebia outras opções de finalização, como vinagre fermentado ou flores comestíveis.
O restaurante também argumenta que as formigas apareciam apenas em uma pequena sobremesa dentro de um menu degustação composto por 15 etapas, o que, segundo os proprietários, torna os cálculos da promotoria exagerados.
Por que chefs usam formigas em alguns pratos?
Apesar de parecer inusitado, o uso de formigas na gastronomia não é exatamente uma novidade.
Algumas espécies produzem ácido fórmico, composto responsável por um sabor naturalmente ácido, frequentemente comparado ao limão ou ao vinagre. Pesquisas também identificaram notas que lembram castanhas, madeira, caramelo e ingredientes tostados, características que despertaram o interesse de chefs especializados em gastronomia experimental.
Em alguns países, elas aparecem como ingrediente em pratos sofisticados justamente pelo perfil sensorial diferente, e não apenas pelo fator surpresa.
O ponto central da investigação não foi apenas o uso das formigas, mas a ausência de autorização oficial.
Na Coreia do Sul, apenas dez espécies de insetos podem ser comercializadas para alimentação, entre elas gafanhotos, grilos e algumas espécies de besouros. As formigas não fazem parte dessa lista.
A legislação permite que novos ingredientes sejam aprovados temporariamente, desde que passem por avaliações de toxicidade, segurança, valor nutricional e condições de produção. Segundo as autoridades, o restaurante nunca solicitou esse processo.
Outro fator que pesou contra o estabelecimento foi o resultado das análises laboratoriais. Os testes indicaram que as formigas utilizadas apresentavam concentrações de metais pesados até 55 vezes maiores do que as encontradas em insetos autorizados para consumo humano.
Enquanto o julgamento segue em andamento, o caso virou assunto dentro e fora da Coreia do Sul.
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