Informações transmitidas pela visão têm maior influência na escolha das comidas e bebidas. (créditos: Shutterstock)
O que faz você achar que um vinho é bom? Se a resposta for o cheiro ou o sabor, saiba que na verdade o seu cérebro tem outros critérios. Quem explica isso é o neurobiólogo Gabriel Lepousez, especialista em percepção sensorial. Em entrevista ao Le Monde, ele contou que a cor do vinho é o primeiro detalhe que chama a atenção do nosso cérebro.
“Ao degustar um vinho que oferece aromas, sabores, texturas e cores, nosso cérebro codifica todas essas informações, pondera e prioriza. E ele baseia fortemente seu julgamento na cor”, explica Gabriel.
E essa história não vale só para o vinho. Na verdade, muitas comidas e bebidas nos conquistam pelo visual, principalmente pelas cores. É o famoso “comer com os olhos”, um truque bem conhecido (e explorado) pela indústria alimentícia. Mas por que isso funciona tão bem? Vamos entender.
Por que classificamos as comidas com os olhos?
A ciência tem uma explicação para isso e ela começa no nosso cérebro. Segundo o neurobiólogo Gabriel Lepousez, ao longo da evolução, a visão ganhou uma vantagem sobre os outros sentidos. Hoje, cerca de 15% do nosso córtex cerebral entra em ação para processar estímulos visuais. Já cheiros e sabores? Ativam só 1%. Ou seja, somos programados para dar mais atenção para o que vemos. A visão é o primeiro sentido que o cérebro consulta, e isso acaba, literalmente, abafando os outros.
“Essa dominância visual tem um efeito inibidor sobre os demais sentidos. As áreas gustativas e olfativas do cérebro, por exemplo, só ficam mais ativas quando fechamos os olhos”, explica Lepousez, que pesquisa como o cérebro reage a sabores e aromas, especialmente no universo do vinho.
Aliás, a relação de Gabriel com o vinho não é só acadêmica. Quando era estudante, o pesquisador comandava o clube de vinhos da faculdade. Mais tarde, mergulhou em pesquisas sobre distúrbios do olfato ligados ao Alzheimer. E em 2014, ao lado de Jean Lenoir (o criador do famoso kit de aromas Le Nez du Vin), fundou a Escola do Olfato, dedicada a treinar o nariz e o cérebro para decifrar o que está por trás de cada taça.
Seu cérebro já decidiu o sabor do vinho antes mesmo de você provar
Segundo Gabriel, a memória também tem um papel importante nesse julgamento. Isso porque nosso cérebro associa cores a experiências anteriores: verde lembra vegetal, vermelho remete a frutas maduras, e por aí vai. Quando vemos a cor de um vinho, essas memórias são ativadas automaticamente e já começamos a prever o que vamos sentir no gosto.
“Se vejo um vinho tinto e sinto um aroma de laranja, meu cérebro estranha. Aí surgem descrições como ‘laranja sanguínea’, só para manter a coerência com a cor escura da bebida”, explica Lepousez.
Essa expectativa visual pode até atrapalhar a percepção real dos aromas e sabores. Um exemplo clássico é o vinho rosé. Muitas pessoas acreditam que, quanto mais escuro, mais forte e alcoólico ele será. Só que isso nem sempre é verdade. Quando o visual e o paladar não batem, o cérebro tende a confiar mais no que os olhos disseram.
Por isso, Gabriel dá uma dica para quem quer se concentrar de verdade no gosto do vinho: experimente usar um copo escuro ou feche os olhos. A chance de se surpreender (e descobrir novos sabores) aumenta bastante.
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