Inspirado em comidas orientais, o pastel não existe em nenhum país asiático (Créditos: Shutterstock)
Dourado, crocante, bem recheado e muitas vezes acompanhado de um bom caldo de cana. Para muita gente, o pastel de feira é apenas aquele clássico indispensável da culinária brasileira. No entanto, por trás desse quitute tão famoso e saboroso, existe uma história marcada por guerra, preconceito e resistência silenciosa que poucas pessoas conhecem.
Quando falar (e ser) japonês virou crime
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil se aliou aos países Aliados para combater o avanço do nazismo pelo mundo. Dentro desse contexto, em 1942, o governo brasileiro decidiu romper relações diplomáticas com o Japão, que era integrante dos países do Eixo, então adversários dos Aliados. Três anos depois, porém, o Brasil declarou guerra contra o Japão, levando a uma ruptura formal entre as duas nações.
A partir daí, imigrantes japoneses que viviam principalmente no estado de São Paulo passaram a sofrer restrições severas. Escolas japonesas foram fechadas, publicações no idioma foram proibidas, propriedades foram confiscadas e, em algumas regiões, falar japonês em público podia até levar à prisão.
Sobreviver virou prioridade e muitos imigrantes buscaram uma estratégia inusitada: passaram a se apresentar como chineses – devido à semelhança física e cultural entre as duas culturas. Esta era uma forma de escapar da perseguição e continuar vivendo no território brasileiro. E foi justamente nesse contexto que surgiram as primeiras pastelarias.
Uma “camuflagem” que virou tradição
Para reforçar a nova “identidade”, comerciantes japoneses começaram a vender alimentos associados à culinária chinesa, como o rolinho primavera (harumaki). Porém, a receita acabou sendo adaptada ao paladar brasileiro: no lugar da farinha de arroz, a massa passou a ser feita com trigo; o saquê deu lugar à cachaça; o formato ficou retangular (ou em meia-lua); e os recheios vieram em sabores já conhecidos (como carne moída, queijo e palmito).
De Santos para o Brasil
De acordo com registros históricos, o pastel criado pelos imigrantes japoneses surgiu oficialmente na cidade de Santos, no litoral paulista. Com sua popularização, ele logo foi levado à capital, onde ganhou espaço principalmente nas feiras de rua. Pouco a pouco, essa iguaria foi conquistando o povo e se espalhou pelo país inteiro.
Ao longo dos anos, um prato concebido em meio à tensão da guerra se tornou um dos maiores símbolos da comida de rua brasileira. E o mais curioso é que, até hoje, muitas barracas de pastel de feira exibem sobrenomes japoneses nas fachadas. Muitos donos e funcionários desses negócios também são descendentes de imigrantes japoneses.
Então, da próxima vez que você morder um pastel quentinho e crocante, lembre-se: não é só comida. É história, é resistência, é herança cultural e é exclusividade do Brasil – não existe na China, nem mesmo no Japão!
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