Por que estamos plantando de novo alimentos que nossos avós comiam e qual é o impacto disso na saúde
Por  Fausto Fagioli Fonseca  | Redator

Fausto é jornalista há mais de 15 anos, tendo trabalhado em diversos veículos com foco em saúde, alimentação, bem-estar e atividade física. Admite que não é um grande cozinheiro como as suas avós, mas tem suas receitinhas secretas!

Ao recuperar o que foi deixado de lado, o Brasil revisita sistemas produtivos e relações com o território

A volta desses alimentos deixa de ser apenas tradição e passa a representar estratégia (Crédito: Shutterstock)

O Brasil abriga cerca de 20% da biodiversidade do planeta. Ainda assim, essa riqueza não se reflete no prato da maioria da população.

Um estudo conduzido pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do IBGE coletados entre 2017 e 2018 em 57.920 domicílios, mostrou que a aquisição de alimentos nativos da biodiversidade local é baixa em todo o país. Em outras palavras, somos um dos territórios mais biodiversos do mundo, mas comemos cada vez mais de forma padronizada.

Esse cenário ajuda a explicar por que cresce o movimento de retomada de alimentos que eram comuns nas mesas de gerações anteriores — frutas regionais, variedades tradicionais de mandioca, peixes locais, preparações artesanais e produtos da agricultura familiar.

Mais do que nostalgia, trata-se de uma resposta concreta a desafios nutricionais, ambientais e sociais que vêm se acumulando nas últimas décadas.

A perda da biodiversidade no prato

Os pesquisadores da USP analisaram 38 alimentos nativos de diferentes estados e constataram que a presença desses itens na alimentação dos brasileiros é inferior ao esperado para um país com tamanha diversidade ecológica.

Nove frutas brasileiras — araçá, cagaita, cambuci, jabuticaba, jatobá, jenipapo, mangaba, pequi e pitanga — fornecem 84 compostos bioativos, incluindo fenóis, carotenoides, antocianinas e iridoides, mas continuam sendo pouco consumidas.

A mudança do sistema alimentar global é apontada como uma das principais causas. A valorização de monoculturas, especialmente de commodities como soja e milho, favorece cadeias produtivas voltadas para exportação e para a indústria de alimentos ultraprocessados. Com isso, pequenas produções locais e alimentos tradicionais perderam espaço nas últimas décadas.

O próprio consumo de frutas, legumes e verduras já é considerado insuficiente no Brasil. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 400 gramas diárias desses alimentos, em cinco ou mais dias da semana. Quando o recorte considera itens da biodiversidade local, os números são ainda menores.

O impacto na saúde da população

A retomada de alimentos tradicionais tem sido associada a efeitos positivos na saúde, especialmente quando substituem produtos industrializados e ultraprocessados. Um exemplo concreto vem do Amazonas, onde a Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapoa), coordenada pelo Ministério Público Federal, passou a fomentar a compra de alimentos produzidos por comunidades indígenas e tradicionais para a merenda escolar.

Antes da iniciativa, muitas escolas em territórios indígenas recebiam enlatados e embutidos, frequentemente enviados por razões logísticas, já que diversas comunidades não dispõem de energia elétrica contínua para conservar alimentos. A substituição desses produtos por peixe fresco, farinha de mandioca, beiju, polpas de frutas como açaí e cupuaçu e outros alimentos locais trouxe mudanças mensuráveis.

Uma avaliação conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas em três escolas indígenas atendidas pelo projeto apontou queda significativa no déficit nutricional das crianças em comparação com dados de dez anos antes. Segundo os pesquisadores, o efeito está diretamente ligado ao maior consumo de alimentos naturais e culturalmente adequados.

Além do valor nutricional, esses alimentos funcionam como instrumento de transmissão cultural. A alimentação deixa de ser apenas suprimento calórico e passa a reforçar identidade, pertencimento e conhecimentos tradicionais.

Produção local, renda e sustentabilidade

A retomada do cultivo e consumo de alimentos tradicionais também tem impacto econômico e ambiental. De 2019 a 2024, mais de R$ 11 milhões foram destinados à compra de alimentos produzidos por povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas para a alimentação escolar em diferentes estados. No Amazonas, mais de 200 escolas foram atendidas, beneficiando cerca de 20 mil estudantes e gerando renda para mais de mil famílias.

A política se apoia na Lei 11.947/2009, que determina que pelo menos 30% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação destinados à alimentação escolar sejam utilizados na compra de produtos da agricultura familiar, com prioridade para povos tradicionais.

Além disso, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação reduziu o percentual permitido de alimentos processados e ultraprocessados no Programa Nacional de Alimentação Escolar, medida que tende a ampliar a demanda por produtos frescos e locais.

Do ponto de vista ambiental, a compra direta reduz custos logísticos e emissão de combustível, além de diminuir a geração de resíduos nas comunidades. A produção tradicional costuma depender menos de adubos químicos, agrotóxicos e maquinário pesado, contribuindo para a conservação do solo e dos ecossistemas.

Uma resposta moderna a um problema atual

O retorno aos alimentos que nossos avós conheciam não é um movimento isolado ou meramente simbólico. Ele se insere em uma discussão mais ampla sobre segurança alimentar, saúde pública e sustentabilidade. O fortalecimento da agroecologia, a valorização da sazonalidade e o incentivo a hortas comunitárias são apontados como caminhos para reaproximar população urbana e produção de alimentos.

Em um país onde a dieta se tornou cada vez mais homogênea e baseada em poucos ingredientes, ampliar a diversidade alimentar é também ampliar o repertório nutricional. Estudos mostram que alimentos nativos podem oferecer compostos bioativos relevantes e contribuir para dietas mais equilibradas.

Ao recuperar o que foi deixado de lado, o Brasil revisita não apenas receitas antigas, mas sistemas produtivos e relações com o território. Plantar novamente o que os avós cultivavam significa, em muitos casos, fortalecer cadeias curtas de comercialização, gerar renda local, reduzir dependência de ultraprocessados e diversificar a alimentação.

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