Uma estudante quer transformar o sabor do tomate com a ajuda da engenharia genética. (créditos: Shutterstock)
Imagine morder um tomate e sentir o sabor de um hambúrguer. Parece coisa de ficção científica, mas essa é a ideia por trás de um projeto de engenharia genética desenvolvido pela jovem pesquisadora Gabriella Rothberg, nos Estados Unidos. A proposta é modificar plantas de tomate para que elas produzam heme, uma molécula que contribui para o sabor característico da carne.
O projeto, chamado Impossible Vines, começou com uma pergunta que Gabriella se fez aos 15 anos e evoluiu para uma iniciativa com patente registrada nos Estados Unidos. Ao lado de Maddison Marshall, doutoranda da Universidade de Miami, a estudante trabalha para desenvolver plantas capazes de produzir compostos associados ao sabor da carne.
O que é heme e por que ele está relacionado ao sabor da carne?
O heme é uma molécula que contém ferro e está presente naturalmente em proteínas encontradas nos tecidos animais, como a hemoglobina e a mioglobina. Além de participar de funções importantes no organismo, ele contribui para as reações químicas que acontecem durante o cozimento da carne e ajudam a formar seu aroma e sabor característicos.
É justamente por isso que o composto desperta o interesse de pesquisadores que trabalham no desenvolvimento de alimentos à base de plantas com sabor semelhante ao da carne.
A empresa Impossible Foods, por exemplo, utiliza leveduras geneticamente modificadas para produzir heme e incorporar a substância a seus produtos vegetais. A proposta da Impossible Vines segue uma direção diferente. O objetivo é fazer com que a própria planta de tomate produza os compostos desejados.
“Então você vai morder um tomate e ele terá gosto de hambúrguer”, explicou Gabriella ao Miami New Times ao descrever a ideia por trás do projeto.
A expectativa é desenvolver um alimento que combine características de um vegetal com um sabor geralmente associado a produtos de origem animal. No entanto, ainda é necessário verificar se os tomates conseguirão apresentar esse resultado na prática.
Como os pesquisadores querem criar um tomate com gosto de hambúrguer
Para tentar alcançar esse objetivo, a equipe utiliza uma técnica de engenharia genética com a bactéria Agrobacterium. Ela é empregada em pesquisas científicas para transferir material genético para células vegetais.
Nesse caso, o método permite introduzir nas plantas os genes selecionados para que elas produzam proteínas envolvidas na síntese dos compostos relacionados ao heme.
O processo, porém, não aconteceu sem dificuldades. Durante meses, as plantas não se desenvolveram da maneira esperada. A equipe precisou buscar orientação de outros pesquisadores até identificar um problema na concentração de vitaminas utilizada no meio de cultura, ambiente que fornece os nutrientes necessários para o crescimento das plantas durante o experimento.
Depois que essa condição foi corrigida, o desenvolvimento avançou. Segundo Gabriella, a mudança permitiu que a pesquisa progredisse em um ritmo muito mais rápido.
Ainda assim, fazer uma planta crescer em laboratório é apenas uma etapa do trabalho. Os pesquisadores precisam avaliar se os tomates produzirão os compostos em quantidade suficiente, se poderão ser cultivados de maneira viável e quais serão suas características quando estiverem maduros.
Inteligência artificial também ajudou no desenvolvimento do projeto
Outro aspecto que chama a atenção na iniciativa é o uso de inteligência artificial (IA). Gabriella recorreu a ferramentas desse tipo para auxiliar em diferentes etapas, desde a elaboração de um plano de negócios até a preparação de uma minuta de patente.
A tecnologia também foi utilizada no planejamento das construções genéticas que seriam introduzidas nas plantas.
“Ela me ajudou a elaborar um plano de negócios, redigir uma patente e construir os projetos para o gene heme que quero integrar na planta de tomate”, contou a jovem ao Miami New Times.
O uso da IA não significa, porém, que a tecnologia substitua os testes científicos. Os resultados do experimento ainda precisam ser comprovados por meio de análises e avaliações realizadas pelos pesquisadores.
Projeto já tem patente nos Estados Unidos
A Impossible Vines também avançou na área de propriedade intelectual. Uma patente americana emitida em junho de 2026 identifica Gabriella e seu pai, Jonathan Rothberg, como inventores, enquanto a Impossible Vines Inc. aparece como titular da patente.
Embora a patente represente um avanço para o projeto, ela não significa que o produto esteja pronto para ser comercializado. Ainda há etapas importantes para demonstrar que a tecnologia funciona como esperado e que os tomates podem ser produzidos com segurança e viabilidade.
Além do sabor, jovem quer aumentar o licopeno dos tomates
Além de investigar a produção de compostos relacionados ao heme, Gabriella estuda a possibilidade de aumentar a quantidade de licopeno nos tomates.
O licopeno é um pigmento natural responsável por grande parte da coloração vermelha do fruto. Ele pertence ao grupo dos carotenoides e tem propriedades antioxidantes, motivo pelo qual é estudado por pesquisadores interessados na relação entre alimentação e saúde.
Algumas pesquisas investigam uma possível associação entre o consumo de licopeno e a redução do risco de determinadas doenças, incluindo alguns tipos de câncer. Entretanto, as evidências disponíveis não permitem afirmar que aumentar a ingestão desse composto seja suficiente para prevenir a doença.
Por isso, mesmo que o projeto consiga produzir tomates com mais licopeno, eventuais benefícios para a saúde ainda precisariam ser avaliados. A quantidade presente no alimento, sua absorção pelo organismo e o conjunto da alimentação são fatores importantes nessa análise.
Tomate com gosto de carne pode ajudar na alimentação?
Uma das possibilidades levantadas por Gabriella é que a tecnologia contribua para ampliar o acesso a determinados nutrientes em locais onde a carne é cara ou difícil de encontrar.
A ideia também desperta interesse pela possibilidade de desenvolver alimentos vegetais com características nutricionais diferentes das variedades convencionais. No entanto, a presença de heme em um tomate modificado, por si só, não garante que o alimento forneça uma quantidade significativa de ferro que possa ser absorvida pelo organismo.
Para avaliar esse potencial, será necessário medir a quantidade produzida e estudar sua biodisponibilidade, ou seja, quanto do nutriente pode ser efetivamente aproveitado pelo corpo.
Os pesquisadores também precisam investigar o perfil nutricional final do fruto e verificar se as plantas conseguem crescer de maneira consistente fora das condições controladas do laboratório.
Por enquanto, o tomate com gosto de hambúrguer continua sendo uma proposta em desenvolvimento. Se os testes confirmarem que a tecnologia funciona, o projeto poderá abrir novas possibilidades para a produção de alimentos vegetais.
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