Cientista explica por que chegar aos 100 anos é muito diferente de conseguir ultrapassar o atual limite da longevidade humana.
Você já imaginou chegar aos 108 anos? Segundo Venki Ramakrishnan, vencedor do Prêmio Nobel de Química, uma pessoa que alcança essa idade tem cerca de 50% de chance de viver mais um ano. O número parece surpreendente, mas ajuda a entender como o envelhecimento muda o funcionamento do nosso corpo.
Ramakrishnan estudou o assunto em seu livro Why We Die: The New Science of Ageing and the Quest for Immortality ("Por que Morremos: A Nova Ciência do Envelhecimento e a Busca pela Imortalidade", em tradução livre). Para ele, a ciência já conseguiu fazer com que as pessoas vivam mais, mas ainda existe uma grande dificuldade: aumentar o limite máximo da vida humana.
O risco de morrer aumenta conforme envelhecemos
Ao longo da vida, a chance de morrer no ano seguinte vai aumentando. Aos 25 anos, por exemplo, essa probabilidade é muito baixa, de aproximadamente 0,1%. Aos 60, chega a cerca de 1%. O número cresce ainda mais nas idades avançadas. Aos 80 anos, a probabilidade chega a aproximadamente 6% e, aos 100 anos, fica em torno de 16%.
Quando uma pessoa chega aos 108 anos, a situação é diferente. Segundo o exemplo apresentado por Ramakrishnan, a chance de sobreviver por mais um ano fica em torno de 50%.
Isso não significa que toda pessoa de 108 anos terá exatamente essa probabilidade. É uma estimativa baseada em dados populacionais. O exemplo serve para mostrar como o risco aumenta à medida que a idade avança.
Por que o corpo envelhece?
O envelhecimento não acontece por causa de um único problema. Com o passar dos anos, várias partes do organismo começam a funcionar de maneira menos eficiente.
Nossas células precisam o tempo todo reparar danos, produzir proteínas, eliminar partes que não funcionam mais e manter os tecidos em bom estado. Com a idade, esses mecanismos de manutenção também sofrem alterações.
É como se o corpo tivesse um sistema de manutenção que vai ficando menos eficiente com o tempo. Pequenos problemas começam a se acumular e podem afetar diferentes órgãos e funções.
Entre as mudanças associadas ao envelhecimento estão danos no DNA, alterações nas proteínas, problemas no funcionamento das células e aumento de processos inflamatórios.
E existe um detalhe importante: essas mudanças estão relacionadas umas às outras. Por isso, resolver apenas um dos problemas não seria suficiente para fazer o organismo voltar a funcionar como quando era jovem.
A ciência já conseguiu aumentar bastante a expectativa de vida
Apesar dos desafios, os seres humanos já vivem muito mais tempo do que no passado. Melhorias no saneamento, na alimentação, nas vacinas, nos antibióticos e nos tratamentos médicos fizeram com que mais pessoas chegassem à velhice. A ciência conseguiu reduzir muitas das causas de morte que antigamente impediam as pessoas de alcançar idades avançadas.
Mas existe uma diferença entre fazer mais pessoas chegarem à velhice e fazer uma pessoa viver muito além do limite conhecido.
Ciência busca resposta para um dos maiores mistérios do envelhecimento humano
Existem estudos sobre diferentes maneiras de interferir nos processos relacionados ao envelhecimento. Uma delas é a restrição calórica, que apresentou resultados interessantes em alguns estudos com animais.
Também existem pesquisas envolvendo medicamentos como a rapamicina e a metformina. Outros cientistas estudam medicamentos que atuam sobre o GLP-1 e técnicas capazes de modificar o comportamento de células envelhecidas.
Mas é importante não confundir pesquisa científica com tratamento comprovado. Resultados observados em animais ou em estudos iniciais não significam que essas estratégias possam fazer pessoas saudáveis viverem décadas a mais.
O maior desafio de viver mais está na complexidade do corpo
Para Ramakrishnan, aumentar radicalmente a longevidade seria muito mais complicado do que simplesmente encontrar uma "cura" para o envelhecimento. Isso porque envelhecer envolve praticamente todo o organismo. Células, tecidos e órgãos passam por mudanças ao longo das décadas. Esses processos acontecem ao mesmo tempo.
Por isso, mesmo que os cientistas consigam desacelerar alguns deles, outros ainda podem continuar acontecendo. Viver 150 ou 200 anos não é algo proibido pelas leis da física. O problema é descobrir como manter um organismo humano funcionando adequadamente durante todo esse tempo.
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