Um truque simples de conservação pode modificar a estrutura dos carboidratos e favorecer a digestão do pão
É difícil alguém resistir a um pãozinho recém-saído da padaria, com miolo macio, aroma irresistível e aquela casquinha crocante. Mas o que pouca gente sabe é que existe um truque inusitado que pode mudar não apenas a textura, mas também a forma como o organismo consegue digerir a massa.
Além de conservar o alimento por mais tempo, congelar o pão antes de consumi-lo é uma maneira de torná-lo mais interessante para nossa saúde. A explicação está na transformação natural que ocorre com o amido quando a massa é resfriada e depois descongelada.
O que acontece com o amido do pão quando ele é congelado?
O pão é rico em amido, um tipo de carboidrato formado por longas cadeias de moléculas de glicose. Durante o cozimento, o calor e a água fazem com que essas estruturas se expandam e fiquem mais acessíveis às enzimas digestivas. É por isso que o amido do pão recém-assado pode ser digerido com relativa facilidade, liberando glicose durante a digestão.
No entanto, quando o pão é resfriado, parte dessas estruturas começa a se reorganizar. Algumas cadeias de amido se aproximam e formam estruturas mais organizadas e menos acessíveis às enzimas digestivas. Esse fenômeno é chamado de retrogradação do amido. Com isso, uma parcela desse amido passa a se comportar como amido resistente.
Amido resistente: o carboidrato que chega mais longe no intestino
Ao contrário do amido que é rapidamente quebrado e absorvido no intestino delgado, o amido resistente escapa parcialmente da digestão e chega ao intestino grosso. Ali, ele pode ser utilizado pelas bactérias da microbiota intestinal por meio da fermentação.
Nesse sentido, o amido resistente apresenta características semelhantes às das fibras alimentares e pode contribuir para a produção de compostos benéficos ao intestino. É justamente essa mudança na digestão que torna o pão congelado tão interessante do ponto de vista nutricional.
Pode impactar a glicemia e a saciedade
Como uma parte do amido se torna menos disponível para digestão, a glicose proveniente do carboidrato do pão pode chegar à circulação de maneira mais gradual. Isso não significa, porém, que congelar uma fatia de pão elimine totalmente seu efeito sobre a glicemia, já que o resultado depende também do tipo de pão, da quantidade ingerida e do que acompanha a refeição.
Além disso, alimentos que são digeridos mais lentamente podem contribuir para uma sensação de saciedade mais prolongada. Lembrando que isso também depende de vários fatores, incluindo a quantidade de proteínas, fibras e gorduras consumidas junto. Ainda assim, o pão congelado pode ser mais benéfico do que aquele que não passou pelo resfriamento.
Qual é o jeito certo de congelar pão?
Para aproveitar essas possíveis vantagens, é importante congelar o pão adequadamente para que ele não perca qualidade e sabor nesse processo. A maneira mais indicada é cortar o pão em fatias e armazená-las em uma embalagem bem fechada própria para freezer.
Uma vez feito isso, é só retirar a quantidade que for consumir e aquecer as fatias diretamente em uma torradeira ou no forno. Não é preciso descongelar o pão, a não ser que ele esteja inteiro. A combinação entre resfriamento e posterior aquecimento, inclusive, pode favorecer ainda mais as mudanças na estrutura do amido.
Congelar não substitui escolher um bom pão
Aqui, vale deixar uma ressalva. Apesar do efeito interessante sobre o amido, o freezer não transforma um pão industrializado ou muito rico em açúcar e gordura em uma opção nutricionalmente equivalente a um pão integral de boa composição.
Para o consumo diário, é fundamental priorizar pães com maior quantidade de fibras, farinha integral e uma lista de ingredientes adequada às necessidades da alimentação. Ou seja, a qualidade da receita e a quantidade consumida continuam sendo importantes. O congelamento pode ser encarado apenas como um pequeno recurso adicional.