Uma mãe e sua filha coletaram lixo durante dois anos e construíram uma casa de sete cômodos com 8.000 garrafas de vidro recicladas
Por  Joanna  | Redatora

Quem a vê assumindo o papel de chef nas viagens com os amigos não imagina que a Joanna descobriu o seu talento com as panelas reproduzindo receitas do Instagram e TikTok. Tornou-se expert em receitas na prática e, agora, também é a grande responsável pelas sobremesas nos almoços em família

O que começou como uma ação para limpar as praias acabou dando origem a uma casa construída com milhares de garrafas descartadas.

Garrafas de vidro foram posicionadas verticalmente e usadas no lugar de tijolos em parte das paredes da residência. (créditos: reprodução/Instagram @casadesal.eco)

O que muitos turistas deixaram nas praias de Itamaracá, em Pernambuco, virou parte de uma casa. Durante quase dois anos, Edna Dantas e sua filha, Maria Gabrielly, recolheram milhares de garrafas de vidro descartadas no litoral. Ao todo, foram mais de 8.000 recipientes reaproveitados na construção de uma moradia com sete cômodos.

A iniciativa começou durante a pandemia de Covid-19, quando o acúmulo de resíduos nas praias chamou a atenção das duas. Em vez de esperar por uma solução, elas decidiram agir por conta própria.

Edna, de 55 anos, é educadora socioambiental. Maria Gabrielly, de 27, trabalha com moda sustentável. Juntas, transformaram a coleta de lixo em um projeto de construção que ganhou o nome de Casa de Sal.

Garrafas foram incorporadas às paredes da casa

O trabalho foi muito além de simplesmente juntar os recipientes. Cada garrafa precisou ser recolhida, lavada e separada antes de entrar na obra. Os vidros foram utilizados nas paredes, enquanto paletes reaproveitados ajudaram a formar divisórias. Até o telhado recebeu materiais que seriam descartados.

As garrafas foram posicionadas na vertical e incorporadas às paredes no lugar dos tijolos. A estrutura da casa, porém, também conta com materiais convencionais, como madeira e cimento.

Segundo Edna, uma das vantagens do vidro é o baixo custo dentro da cadeia de reciclagem. Por ser pesado e ter pouco valor de revenda, o material muitas vezes nem é recolhido por catadores.

“Dentro da cadeia da reciclagem, o vidro é um dos resíduos mais baratos. A garrafa PET vale mais porque é um material mais leve”, explicou a educadora socioambiental em entrevista ao portal de notícias G1.

O resultado chama atenção principalmente pela iluminação. Durante o dia, a luz atravessa as garrafas e cria reflexos coloridos dentro dos cômodos.

Para Edna, o uso do vidro também reforça uma questão ambiental. O material pode permanecer no ambiente por muito tempo quando não recebe a destinação adequada.

“Se uma garrafa não quebra, pode permanecer intacta por anos”, explica Edna.

Mãe e filha também enfrentaram preconceito durante a construção

Antes de conseguirem terminar a moradia, as duas passaram meses trabalhando e vivendo em uma pequena oficina de costura de apenas 20 metros quadrados. A construção também trouxe outro desafio: provar que eram capazes de conduzir a própria obra. Segundo Maria Gabrielly, homens que visitavam o local frequentemente tentavam explicar como elas deveriam realizar o trabalho.

“Por trás desta casa existe técnica, gestão e visão”, afirma a estilista.

A experiência acabou transformando a construção em algo maior do que uma alternativa para reaproveitar resíduos. A Casa de Sal passou a representar autonomia, sustentabilidade e uma crítica à maneira como o lixo é tratado nas áreas turísticas.

Uma casa feita de resíduos e uma mensagem ambiental

A residência foi planejada para funcionar sem depender da rede de esgoto. Como o local não tem acesso ao sistema convencional, mãe e filha instalaram uma fossa biodegradável.

A estrutura faz a filtragem dos dejetos e permite que o material tratado seja aproveitado na adubação. Assim, a solução reduz o desperdício e se adapta às condições do terreno.

A Casa de Sal é uma atração para quem visita a região. A residência recebe viajantes interessados em conhecer de perto o projeto e ter uma experiência mais próxima da natureza e da comunidade local.

Edna e Maria Gabrielly disponibilizam um dos quartos da casa para hospedagem pelo Airbnb. A diária custa cerca de R$ 168. “"A gente faz o que a gente chama de 'ecovivência'. A gente recebe grupos para 'ecovivenciar' Itamaracá.”, resume Gabrielly. 

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