As cozinhas abertas continuam populares, mas os projetos estão mudando: arquitetos percebem que muitos moradores querem mais controle sobre ruídos, odores e privacidade.
Por anos, a cozinha integrada à sala foi um dos projetos mais desejados por quem reformava a casa. A ideia de eliminar paredes, ampliar a circulação e aproximar os ambientes conquistou espaço principalmente em imóveis menores, onde cada metro quadrado precisa ser bem aproveitado.
Agora, porém, arquitetos percebem uma mudança nas preferências. Isso não significa que as cozinhas abertas estejam saindo de moda, mas que os projetos estão ficando mais flexíveis. Em vez de escolher entre um ambiente totalmente aberto ou completamente fechado, muitos moradores procuram soluções que permitam controlar a integração conforme a necessidade.
A cozinha aberta deixou de ser uma escolha automática
Para Xavier Taulé e Paula Tapiz, arquitetos e fundadores do Cala Estudi, essa transformação não representa uma rejeição ao conceito aberto. Em entrevista à Arquitectura y Diseño, os profissionais explicam que a tendência simplesmente passou por um processo de amadurecimento.
"Sim, embora não como uma rejeição total da cozinha aberta, mas como um ajuste. É algo que acontece com qualquer tendência: no início, ela é levada ao extremo e, com o tempo, desenvolve-se uma abordagem mais madura que permite que a mesma ideia seja usada com mais critério", afirmam.
A mudança está relacionada principalmente à percepção de que cada família utiliza a casa de uma maneira diferente. Uma configuração que funciona perfeitamente para pessoas que recebem muitos convidados pode não ser tão confortável para quem precisa de silêncio, privacidade ou mais controle sobre os ambientes.
Ruídos e odores não são os únicos problemas
Quando questionados sobre o que faz algumas pessoas sentirem falta da separação depois de optar por uma cozinha totalmente aberta, os arquitetos apontam para uma questão maior do que os conhecidos ruídos e odores.
"Na verdade, acreditamos que o ruído, os odores e a falta de privacidade são sintomas do problema subjacente, que é a incapacidade de controlar o grau de exposição de cada espaço. Em outras palavras, não ter um espaço que não esteja aberto ao olhar ou ao som de outras pessoas. É isso que realmente falta", explicam.
Nesse sentido, a principal questão não seria fechar ou abrir a cozinha, mas permitir que os moradores decidam quando querem integração e quando preferem separar os ambientes.
Portas de vidro aparecem como meio-termo
Uma das soluções adotadas pelo escritório são as portas de vidro deslizantes. Elas preservam a entrada de luz e a sensação de amplitude, mas permitem separar a cozinha quando necessário.
Os arquitetos explicam: "Acreditamos que existe um meio-termo entre a sensação de amplitude e a separação prática, e encontramos isso, por exemplo, no uso de portas de vidro deslizantes. Com esses sistemas, os usuários podem decidir a qualquer momento se desejam abrir ou fechar o espaço conforme a necessidade."
A alternativa pode ser especialmente interessante para quem gosta da integração visual, mas não quer que todos os sons e aromas da cozinha se espalhem pela casa.
Antes da reforma, é preciso pensar na rotina
Para o Cala Estudi, não existe uma resposta universal sobre qual configuração é melhor. Antes de derrubar paredes, os arquitetos procuram entender como os moradores realmente utilizam a casa.
"De modo geral, falando pela nossa experiência, as cozinhas abertas geralmente não são algo que as pessoas tenham uma ideia clara desde o início. As pessoas nos perguntam se é uma boa solução, e acreditamos que não há uma resposta única", afirmam.
Por isso, são considerados fatores como quem cozinha, com que frequência, quais tipos de pratos são preparados, quantas pessoas costumam permanecer em casa e o que fazem enquanto a refeição está sendo preparada.
O futuro também deve entrar no projeto
A rotina atual não é o único aspecto considerado. Os arquitetos também recomendam pensar em possíveis mudanças nos próximos anos: novos horários de trabalho, maior frequência de visitas, trabalho remoto ou até o envelhecimento dos moradores.
Em um dos projetos do escritório, chamado Rossa, a cozinha foi completamente integrada ao pátio de entrada. O objetivo era criar uma grande ilha onde os moradores pudessem cozinhar enquanto as crianças faziam as tarefas na sala.
O exemplo reforça uma ideia importante: o melhor projeto não é necessariamente aquele que segue a tendência do momento, mas aquele que responde às necessidades reais de quem vive na casa. Afinal, uma cozinha aberta pode ser excelente para uma família e pouco prática para outra e soluções intermediárias podem oferecer justamente a flexibilidade que faltava.
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