O cultivo de trufas parecia impossível no frio da Patagônia, mas dois amigos provaram o contrário. Entre erros e aprendizados, eles transformaram a ideia improvável em um sucesso.
O que começou como uma ideia improvável no meio da cordilheira da Patagônia acabou se transformando em um projeto pioneiro e bem-sucedido. Jorge Bortolato e Adrián Piriz, amigos de longa data e engenheiros químicos, decidiram apostar em uma das culturas mais raras e valorizadas do mundo: as trufas.
Entre erros, ajustes e muito aprendizado, a dupla mostrou que é possível adaptar um cultivo tradicionalmente europeu às condições desafiadoras do sul argentino, transformando a produção em uma experiência turística e gastronômica única.
Da tentativa frustrada ao cultivo improvável
A trajetória começou com Jorge, que inicialmente pensou em cultivar tulipas, inspirado pela experiência do sogro holandês e por projetos bem-sucedidos. O plano, porém, não saiu do papel. Em vez de desistir, ele decidiu arriscar algo ainda mais ousado: o cultivo de trufas. Em 2019, Adrián se juntou à empreitada e fez sua mudança, para se dedicar integralmente ao projeto.
Desde o início, os dois ouviram previsões pouco animadoras. Muitos afirmavam que nada prosperaria nos solos de montanha da região. Além disso, todo o material técnico disponível era baseado em manuais europeus, sem qualquer adaptação à realidade patagônica. Assim, o projeto avançou na base da tentativa e erro. Para ajustar o solo, por exemplo, foi necessário corrigir o pH: cerca de 35 toneladas de carbonato de cálcio foram adicionadas para elevar o índice até o nível ideal. O esforço deu resultado com as primeiras trufas de inverno em 2019 e as de verão em 2021.
Raridade, técnica e paciência no processo
A trufa é considerada uma iguaria por sua combinação de aroma intenso, sabor peculiar e extrema dificuldade de obtenção. Trata-se de um fungo que exige solos bem drenados e pouco ricos em matéria orgânica.
No projeto, os engenheiros utilizam principalmente carvalhos já micorrizados, cultivados em viveiros especializados. Atualmente, eles cultivam duas variedades de trufa negra: a de verão (Tuber aestivum), em dois hectares e meio, e a de inverno (Tuber melanosporum), em um hectare.
Uma experiência que vai além do gourmet
Mais do que vender um produto premium, Jorge e Adrián definem seu trabalho como “turismo de trufas”. Os visitantes participam da colheita ao lado de cães treinados, aprendem sobre o processo e encerram a experiência com degustações e bebidas regionais. A atividade dura cerca de duas horas e transforma um ingrediente raro em vivência acessível.
A maior parte da produção é consumida pelos próprios visitantes, embora parte chegue a restaurantes locais e de Buenos Aires. Para os dois amigos, democratizar o acesso sempre foi o objetivo. Em Mallín Ahogado, a trufa deixou de ser um mistério europeu e passou a representar amizade, persistência e uma nova possibilidade econômica para a região.
Veja mais
Este truque de cozinha finalmente resolve o pesadelo dos rótulos impossíveis de descolar
Nem quebradiça, nem seca: coloque um pouco de vinagre na água da linguiça e veja o que acontece na panela